LIVRO
Ai
Fábio Campana


Romance
182 páginas
15x21
R$ 35,00 + frete
ISBN: 978-85-89485-68-5

O mais recente romance de Fábio Campana trata de diversos assuntos simultaneamente. O conflito entre o utópico e o real, um drama familiar, as impossibilidades, a relação a dois, os fantasmas do passado. Com linguagem ágil e envolvente, o autor costura os vários motes e apresenta um final surpreendente.

Ai, novo romance de Fábio Campana, apresenta a trajetória de pessoas históricas e imaginárias, todas elas asfixiadas não pela falta de ar, mas pela falta de centro e de essência.

Nelson de Oliveira


Resenha
Nada na verdade é o que parece ser
Marcio Renato dos Santos
Ai , mais recente romance de Fábio Campana, tem diversas camadas. Uma delas, uma dessas camadas sugere: nada é o que parece. Os(...)

Trecho
1
Sempre que retorno à casa da família sou tomado pela sensação de representar uma farsa.

Quem volta não é o esperado. É outro. Alquebrado, quase irreconhecível, homem que não correspondeu a nenhuma das promessas feitas a si mesmo. Menos ainda às esperanças da família.

Tem os meus traços. São meus os seus olhos. Há na sua aparência algo que restou da juventude.

Não deveria se apresentar assim, o abdômen flácido, a face enrugada e o sorriso contido de quem entrou na terceira dentição.

Aos olhos de mamãe, aqui deveria estar um homem altivo. Alguém que realizou os projetos da juventude. Não a figura que provoca a piedade das tias.

Todos os anos eu prometo a mim mesmo que será a última vez que cumpro este ritual que me aproxima do espelho da família.

Não quero estar aqui no próximo verão porque é doloroso submeter-me ao olhar decepcionado destas velhas senhoras que já não têm tempo para reconstruir as ilusões que um dia tiveram sobre o meu desempenho.

É ainda mais constrangedor que o olhar de comiseração da mãe e das tias seja percebido por Marta, que se delicia com essas situações que alimentam o seu arsenal para a nossa guerra privada, para a troca de insultos nas noites doentes de nosso casamento que se alonga porque talvez já não saibamos viver sem o outro para purgar o nosso fel.

Inútil. Sei que acabarei sucumbindo ao costume e aos apelos de mamãe. Sempre retorno, mesmo sabendo que estar no mundo doméstico de minha infância e do inicio da juventude é experiência aflitiva porque me expõe ao exame constrangedor de minha história adulta.

O que esperavam?  Mamãe sonhou o filho médico ou engenheiro, profissões que antigamente garantiam um cidadão bem posto na vida.

Advocacia não, pois mamãe detesta tudo o que lembra o meu pai. Advogado, para ela, é profissão de segunda classe. Que dizer das demais? Professor, então, seria a última que recomendaria.

Devo admitir que a trajetória foi desalentadora não só para a família. Sigo amarrado a uma bóia de conformismo, procurando manter a cabeça acima da linha d’água. Quanto esforço, quantas esperanças, e o resultado é uma paçoca mofina de frustrações.

 Não deixei sinais de lutas. Não houve ousadia nem determinação. O capítulo final tem sido a tediosa rotina de professor metido em questões de pouca originalidade.

Não posso amenizar a decepção de mamãe como costumava fazer, fingindo-me envolvido em grandiosos projetos. Ninguém mais aguarda a biografia de Cabeza de Vaca, a nova história da Guerra do Paraguai ou a pesquisa sobre a passagem da Coluna Prestes pela cidade.

Até os quarenta anos, vá lá, mas depois dos cinqüenta passa a ser ridículo imaginar-se uma promessa. Tão ridículo quanto simular a juventude que se esvaiu, como fazem os velhos músicos das bandas de rock.

Há algum consolo em perceber que não estou só. Excetuando meu irmão Carlos e o Guacho, que mudaram o rumo e conseguiram escalar o fosso da mediania. Carlos é hoje um dirigente político que, segundo a lenda, manipula o poder nos bastidores e dessa condição retira fortunas que sustentam a sua vida de nababo.

Guacho também migrou para o lado escuro e tornou-se invisível. É o mais célebre criminoso da fronteira. Sua organização não respeita linhas divisórias. Guacho está nos três países e pelas histórias que dele contam adquiriu o dom da onipresença.

Guacho distribui a cocaína que entra pela foz do Iguaçu para São Paulo e o Rio de Janeiro. É o maior fornecedor de armas de contrabando para as quadrilhas do resto do país.

Pequeno, mirrado, ninguém imaginaria o Guacho, o mais quieto da turma, temido pelas polícias, famoso pela coragem e pela truculência. Foi ele que reintroduziu a degola como marca pessoal dos assassinatos. La corbata passou a ser a sua assinatura. Pelo corte extenso no pescoço retira a língua que pende como pequena gravata e dá ao morto um aspecto ridículo, cômico, debochado, principalmente naqueles que se atreveram a delação.

Carlos e Guacho poucas vezes são lembrados pelo resto da turma. E quando o são, é indisfarçável o ar de reprovação carregado de inveja. Afinal, com exceção dos dois, todos falhamos. Fizemos planos, ensaiamos vôos altíssimos e acabamos amarrados ao mundo natal e a sua pasmaceira.

O Alberto conseguiu cursar medicina. Hoje, todo o seu esforço de homem de ciência é usado na tentativa de deter a própria calvície. O clínico geral do interior pesquisa poções milagrosas e programa os cortes segundo o calendário lunar. Nada detém a queda dos seus cabelos e ele recorre ao tolo expediente de pintar o que restou e fazer penteados mirabolantes com as madeixas crescidas das laterais para cobrir a calvície do topo.

Jaime, o sedutor. O que causava inveja com seu topete presliano, seu rosto baby-face e sua capacidade de fazer as garotas rirem. Jaime, que invejávamos pelo sucesso nos bailes. O corpo magro, ágil, que deslizava agarrado às cinturas mais cobiçadas é agora prisioneiro de duas hérnias. Uma bolota em cada virilha que ele protege com uma cinta de couro que ele mesmo fez e passa pelo seu rego e é um estorvo sempre que vai ao banheiro.

Alberto, o médico, aconselhou-o a extirpá-las, explicou-lhe o risco de uma hérnia estrangulada. Mas Jaime tem medo da cirurgia. Prefere viver com elas e com o pavor de que possam explodir durante o esforço sexual.

As reuniões recentes da turma tornaram-se deprimentes. Quando jovens nos reuníamos para falar sobre as conquistas, sobre o futuro e sobre os outros. Agora, uma roda de queixosos.

A conversa é monotemática. Cada qual com a sua doença. Os achaques do Ari, que fala com o jargão dos médicos que visita regularmente. Eu fiz uma pneumonia, diz ele. As safenas do Rui. O Gilberto depois do derrame que não o deixa falar. Só ouve, todos os dias, em sua cadeira de rodas, os relatos sobre varizes, hemorróidas e a lista diária de conhecidos mortos.

É olhar para a turma e perceber que dela restaram apenas escombros e enorme dose de autocomplacência. Eu que acredito que tenho todas as doenças menos a hipocondria saía desses encontros com todos os sintomas descritos. Agora fujo. Não quero vê-los, muito menos saber de seus males porque não quero partilhar o sofrimento de cada um deles.

Pensar que fomos belos, bem proporcionados. Mesmo os menos afortunados, os de orelhas grandes, rostos de porquinhos ou sapos, tínhamos a inexprimível graça da juventude. Olhem-nos agora. Grandes, gordos ou pelancudos, de narizes caídos e repugnantes, a pele flácida e gordurosa, salpicada de manchas.

Lembram? Éramos puros e saudáveis. Agora exibimos desagradáveis tufos de pelos saindo das orelhas. Longos fios crescendo sem controle nas sobrancelhas. Os cabelos secos, grisalhos, não há o que lhes devolva o brilho.

E as mãos? Membros delicados e harmoniosos que agora parecem garras enrugadas. Não há como dissimular as bolsas escuras sob os olhos. Nem as rugas, os vincos que marcam o rosto, a cicatriz do riso.

Elas também não escaparam à erosão. As beldades de trinta anos atrás estão em ruínas. Nem as dezessete cirurgias plásticas salvaram Maria Rita da velhice. A pele esticada e a coluna torcida roubaram-lhe também o porte e o ar de soberba.

A mais desejada, a mais disputada nos bailes, casou-se com Estevão, teve um filho, separou-se, todos acreditam que teve um caso com Alberto quando ele ainda tinha cabelos.

Sônia, irmã de Maria Rita, teve outra sorte. Entrou em depressão profunda quando abandonada pelo noivo, Jaime, o das bolotas nas virilhas. Encerrou-se no quarto que mantinha em penumbra, as janelas fechadas, iluminadas apenas por uma vela diante da imagem da Virgem.

Durante um ano ninguém a viu. No inicio de sua clausura correu o boato de que estava decidida a internar-se num convento de clarissas descalças para nunca mais ter contato com os homens.

Quando ninguém mais lembrava de seus olhos verdes contrastando com a tez morena que inspiravam cantorias do bolero de Agustín Lara, quando nenhum dos homens da cidade a incluíam na lista das desejáveis, Sônia voltou aos vivos decidida a não pertencer a nenhum deles e de certa forma a todos.

Estava mais bonita do que antes. Parecia mais magra. Mas o que realmente mudara era a sua maneira de andar e de olhar que adquirira uma sensualidade incrível no corpo da moça que todos lembravam recatada, tímida, até então incapaz de expor as suas emoções em público.

A volta de Sônia mexeu com a cidade. Desde que ela apareceu no baile de formatura, em vestido decotado para mostrar o colo e o inicio dos seios, foi a atração de todos os olhares. Inclusive os de Jaime, que tentou a reaproximação. Mas desde essa noite ele seria o único homem da cidade que jamais tocaria em Sônia. Ela estava decidida a mostrar aos demais o quanto o seu ex-noivo tinha perdido.

Hoje, ninguém sabe onde anda Sônia. Filha do coletor de rendas, a família se mudou de cidade em cidade levando a filha que renunciara ao casamento, mas não aos homens.

Algo é certo. Sônia ultrapassou meio século e já não deve ter a graça que ensandecia a população da última cidade na linha do oeste lá pelos anos 60. Os homens desafiados pelo seu olhar. As mulheres ensandecidas de ciúme e despeito. Até hoje elas não pronunciam o seu nome. Sônia é lembrada como a sirigaita. Vingativas, as detratoras dizem compreender agora as razões secretas que teriam levado Jaime a abandoná-la no altar.

A última notícia que se tem de Sonia, a sirigaita, é de alguém que a viu num carnaval do Rio de Janeiro. Enrugada, muita maquiagem para disfarçar as marcas do tempo, mas ainda o olhar que propõe a aproximação.

Nem Sônia, a bela Sônia, terá escapado dos estragos do tempo. Que dizer das outras, condenadas a clausura de casamentos perpétuos, reduzidas à vida doméstica e à procriação.

Sobrou muito pouco daquele tempo. Algumas pessoas que já não quero ver, poucas construções deterioradas, entre elas a casa da família, o território à parte, suspenso na memória, as paredes impregnadas da história dos ancestrais.

Além de mamãe e as tias, verei apenas o meu irmão Carlos, porque é inevitável. Terei que conviver com a sua alegria, com a mordacidade com que se volta contra mim em qualquer oportunidade e com a admiração que merece de mamãe e das tias.

Quanto a mim, sei muito bem que seria melhor enterrar de vez as vaidades e ilusões que sofrer por elas. A tese de mestrado resultou em massudo volume sobre a imigração. Um desses que se acumulam na biblioteca da Universidade. Imprestável. Em cinco anos não houve um único registro de consulta.

Nem bem sei porque dedico ou finjo dedicar energias para o próximo salto na vida acadêmica, o doutorado, com a tese sobre a ocupação do extremo oeste meridional. O projeto confunde história da cidade com o meu interesse pessoal e ainda não é mais que um grande entulho de mapas e documentos que coleciono sem jamais examinar, impedido pela preguiça que sempre me invade diante dos desafios.

Cheguei a acreditar que um recuo aos ancestrais me ajudaria a entender um pouco do que sou hoje, como se fosse possível me inserir na história de coragem, crime e contrabando da gente que se instalou na fronteira muito antes da chegada das leis e dos militares, há mais de um século, e dos quais os únicos herdeiros conhecidos são o meu irmão Carlos e o Guacho.

Não há tempo nem energias. Nós outros que escolhemos o lado claro e protegido da vida com o assentimento da maioria, nos submetemos às regras e fomos incapazes de uma única transgressão que pudesse mudar o destino pessoal.

Chegamos ao ocaso. Sem alcançar uma vida menos pálida do que essa que se arrasta como uma sesta de tarde quente e interminável, quando ficamos entre o sono e a vigília, resistindo a acordar para fugir da realidade áspera em que o tempo galopa e nos aproxima do fim.

É por isso que sempre prometo a mim mesmo que não voltarei no ano que vem, porque me poupar dessa sensação estranha que me invade quando estou sob o olhar de mamãe e das tias.

O que mais machuca é o sentimento de pena que elas expressam ao me ver assim, o abdômen flácido, as rugas que marcam o meu rosto, o sorriso contido de quem entrou na terceira dentição.


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11/9
Wilson e Sarrafo e Orquestra Sinfônica do Paraná – Concerto em Ri Maior
A dupla de palhaços Wilson e Sarrafo apresenta seu tradicional espetáculo humorístico Concerto em Ri Maior em versão especial, acompanhados por arranjos da Orquestra Sinfônica do Paraná sob a regência do maestro convidado Alexandre Brasolim. O  espetáculo  conta,  através de música  e  malabarismo,  a  história  do maestro  russo  Wilson  Schevchenco  que  apresenta  a  tradição  musical  de  sua família  com  a  ajuda  de  seu  amigo  e  fiel  tradutor,  Sarrafo. Serviço: Concerto em Ri Maior & Orquestra Sinfônica do Paraná Datas: 11 e 12 de Setembro Horario: dia 11 as 20h30 e dia 12 as 19h Ingressos:R$40,00(platéia) R$30,00(balcões) Local: Auditório Bento Munhoz da Rocha Netto(Guairão) Endereço: Rua XV de Novembro, 971, Centro
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