Nada na verdade é o que parece ser
Marcio Renato dos Santos
Ai, mais recente romance de Fábio Campana, tem diversas camadas. Uma delas, uma dessas camadas sugere: nada é o que parece. Os personagens não são necessariamente quem aparentam ser. O bonzinho não é, nem poderia ser, absolutamente bom. Talvez o suposto bonzinho possa vir a ser até mau, muito mau, ruim mesmo. Mas isso é apenas um aspecto do romance. Ai é mais.
Ai, o romance de Fábio Campana que acaba ser publicado pela Travessa dos Editores, tem outras camadas. Outra camada se faz pela linguagem que segue fluente a envolver o leitor e a leitora do início até a página 182. Texto elaborado. Mas simples (sem ser simplista). Texto claro. Apesar da complexidade de assuntos tratados. Um texto, acima de tudo, sedutor. Mas essas qualidades do texto são apenas um detalhe dentro de uma obra ampla e, é preciso salientar, visceral.
Ai, a longa narrativa elaborada por Fábio Campana, fala da perda das ilusões. Algum resenhista poderia, pode ainda, chamar o livro (por que não?) de As ilusões perdidas versão 2007. Os personagens de Ai, todos eles, todos eles com alguma quilometragem, já não se iludem mais. Sonhos e utopias não fazem parte do imaginário nem do horizonte dos seres que compõem o painel apresentado por Campana em Ai.
Ai, ficção que dialoga com a ficção e ficção que dialoga com a realidade, expõe, entre outros possíveis conflitos, o choque entre um sujeito utópico e outro sujeito, o prático. Os dois irmãos (Caim e Abel no século 21?) não se matam. Mas lutam (mesmo que verbalmente). Luis é o professor universitário. Carlos é o homem que manipula os políticos do Estado. Um sonha. O outro faz. O confronto entre Luis e Carlos proporciona uma desconstrução do modo de viver, bastante frágil, desta contemporaneidade. Ruínas. Outra camada de Ai diz respeito a ruínas.
Ai se dá durante uma reunião familiar. E a narrativa insinua quão frágeis são os alicerces que mantêm essa família (e qualquer família) em pé. O narrador, Luis, abre Ai com um desabafo contundente:
Sempre que retorno à casa da família sou tomado pela sensação de representar uma farsa.
Quem volta não é o esperado. É outro. Alquebrado, quase irreconhecível, homem que não correspondeu a nenhuma das promessas feitas a si mesmo. Menos ainda às esperanças da família.
Os personagens centrais, os irmãos Luis e Carlos, já adultos, não corresponderam a nenhuma expectativa, nem pessoal nem familiar. Carlos não demonstra desconforto. Há sim algum, não pouco, desconforto, sobretudo por parte de Luis, o utópico professor que se percebe impotente diante de tudo, de um casamento fracassado, de uma trajetória medíocre, do destino enfim. Ruínas. Mas há uma ruína bem mais perturbadora neste Ai. E nisso surge a mãe dos personagens Luis e Carlos. Ela, por exemplo, se vale das tintas mais surreais para imprimir contornos os mais convenientes na galeria de fotos dos antepassados. E será uma ausência, o pai, que ajuda um dos personagens a não se cegar diante desse hábito-costume-tradição que é tornar puro-sangue o que não passa, às vezes, de outra coisa:
O pai, leitor de Borges, costumava dizer que a família de mamãe em nada deve aos personagens da literatura russa.
Se procurarmos os fantasmas que habitam os armários desta casa, ironizava, encontraremos assassinos atormentados que cometeram seu crime por benevolência, suicidas por felicidade, pessoas que se adoravam até o ponto de se separar-se para sempre, delatores por fervor religioso, amantes que mataram por amor, sem contar os frutos de incestos, os bastardos gerados nas sestas quando o leito dos senhores aceitava a companhia da famulagem.
Ai, como se lê, como se apresenta, como se sabe (mesmo a partir desta resenha) não é leitura para quem busca acomodação, o riso fácil e para aqueles que preferem o conflito não-resolvido mergulhado no inconsciente. Ai, antes, conduz ao confronto. Instiga. Faz pensar. Faz rir sim. Mas provoca o riso porque ri do que está por trás das falsas imagens desse jogo de espelho que às vezes outros e uns chamam de realidade. O personagem Luis, em determinado momento, procura o irmão Carlos no Palácio do governo. E o que Ai reserva a respeito da vida pública de uma possível província não são elogios aos poderosos de desde sempre. Ao contrário: ironia, mordacidade e, acima de tudo, lucidez (o tiro é certeiro e mais do que preciso no alvo):
E agora, diante do grande painel encomendado para as comemorações do centenário da emancipação, sorri diante da tela onde figuram os próceres da província, engalanados, o comendador Zacharias de Góes e Vasconcellos segurando pela rédea curta um fogoso cavalo que tenta soltar-se, enquanto entrega ao morador Paula Gomes a mensagem que o nomeia primeiro interventor do território desmembrado da quinta comarca, mas olhando-se de perto e com atenção, e porque não pagaram a encomenda ao pintor, a obra jamais foi concluída e lhes faltam detalhes essenciais, pois todos os personagens da fundação estão cegos, os olhos vazados, o que dá à tela um tom premonitório sobre as lideranças políticas que aqui nasceriam.
Ai é bem mais que tudo foi escrito até aqui. Há ainda capítulos em que se lê o que teriam sido trajetórias de ancestrais dos personagens — e assim painéis a respeito do passado da região Oeste do Paraná ganham novas possibilidades. As camadas de Ai, como já se disse, são muitas. Luis e Carlos têm um outro irmão, Guaxo — “o mais célebre criminoso da fronteira. Distribui a cocaína que entra pela foz do Iguaçu para São Paulo e Rio de Janeiro. Reintroduziu a degola como marca pessoal dos assassinatos”. Ai, como se constata, mesmo a partir de uma resenha como esta (e que acaba daqui a pouco), traz surpresas em seu desenrolar, em seu desenrolar de camadas que não se esgotam e permitem (como toda obra de arte) outras, diferentes desta, leituras (a sua, por exemplo).