Aventuras e desventuras de Don Alvar Nuñez Cabeza de Vaca
Wilson Bueno
Romance de Fábio Campana transita entre a ficção e a realidade do Novo Mudo em busca das raízes da insensatez do homem contemporâneo
Depois de incisivo acerto de contas com um passado marcado pela militância política e a resistência à mais recente ditadura brasileira, em quatro importantes livros, sendo o último deles de 1996, com o não pouco insinuante título O Guardador de Fantasmas, um "romance-memória", o escritor Fábio Campana está de volta. Agora à exuberante prosa já iniciada em Todo o Sangue (2004) e que atinge desta feita, com o recém-lançado O Último dia de Cabeza de Vaca, o seu ponto, a meu ver, mais alto.
Um livro onde, aliado a um minucioso trabalho de linguagem, ou por isso mesmo, o autor nos oferece o mundo mágico e truculento do aventureiro espanhol Don Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, o Adelantado do reino de Espanha no abrasivo trópico de meados do século XVI. Tendo como ponto de partida os diários desta que - existindo ou não -, já é uma das grandes personagens da ficção brasileira recente, o presbítero Francisco Paniágua, Fábio Campana nos dá, entre muitas outras, o hipotético último dia de Cabeza de Vaca num convento em Sevilha.
Desnecessário lembrar o quanto ficção e realidade se mesclam e, bem mais que isso, se interpenetram, alguma vez astuciosamente, neste livro em vários aspectos inquietante. Não basta, sabemos, que a lição de muitos séculos, infinitamente anterior a Jorge Luis Borges - colocado sempre como o paradigma do jogo-de-jogar em que se convertem os textos onde estória e história se misturam -, se realize, para fundar, digamos, uma escrita do disparate e do ardiloso engodo capaz de fazer da literatura não um manual-de-realidades, mas o seu diabólico avesso. Sem falsear o pé jamais - embrujado paradoxo -, da concretude em que a nua vida se faz e a tudo o que pulsa maltrate duramente...
A realidade. Onde está a realidade? Surpreendentemente, será na ficção que este "estamento" manhoso melhor se coloca, só então preso a seu ofício e "sentido" - o de denunciar as mazelas humanas, justamente pela via da invenção mais descarada e da ficção mais desabrida. Em Cabeza de Vaca, por incrível que isso possa parecer, a "realidade" é o que exalta, eleva e constrói...
Mas e a ficção? Perguntaria justamente o leitor de listas telefônicas e de bulas de remédio. A ficção, responderia a arguta prosa de Fábio Campana, está ali, na ambiência mágica em que a inventiva humana, e só ela, através da velha ars litteraria, é capaz da mais candente verdade. Extensão privilegiada de nossa imaginação, a mais insuspeita, só a literatura não nos deixa mentir.
E por falar em "realidade", "verdade", ou o que com isso se pareça, O último dia de Cabeza de Vaca é, antes de tudo, um libelo pela justiça neste nosso velho e insensato mundo, marcado pelo tumulto e a discórdia , o sangue, as guerras, a sanha conquistadora; e selado pela mesquinhez humana como um vício. Saímos do romance de Fábio Campana absolutamente convencidos de que há mais pecados ao sul do sul da linha do Equador do que sonha, ou sonhava, a nossa vã filosofia.
Desterrado em sua própria pátria, exilado de si e do mundo, Don Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, depois de aventuras e desventuras as mais inacreditáveis, acaba os seus dias no mosteiro principal de Sevilha, assistido pelo seu confessor, Francisco Paniágua, o autor deste quase insolente diário que a grande arte de Fábio Campana recria com as tintas de um talento e engenho raros.
Não é pouca coisa para uma obra que coloca Fábio Campana, sem erro, na linha de frente da atual prosa brasileira. Humano até o osso, sem perder jamais ao longo deste livro desconcertante as manhas e artimanhas da "invenção" de uma linguagem - aqui particularmente maravilhosa e maravilhada -, sem a qual, aliás, desnecessário lembrar, nenhuma literatura se constitui ou se cria.