Felipe Hirsch
Conheci a poesia do Marcos e a música do Beixo aa Força numa fita K7 que veio parar na minha mão, não sei como, no meio da década de 80, eu com meus quinze ou dezesseis anos mal vividos.
Pois bem, acho que o Hermano Vianna sabe disso, as quatro músicas dessa fita são e continuam sendo a coisa mais incrível que já ouvi da música brasileira. É isso mesmo, gritem de raiva, mas eu coloco isso no mesmo nível das melhores coisas que já ouvi, Noel, Chico Buarque de Hollanda, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho, Chico Science e Nação Zumbi, e outros mais. Aquelas quatro músicas pesadas, lentas, angustiadas, líricas, irritadas, eram: O Homem de Ferro, O Dono da Farra, Pelo Jeito Mal e o melhor single que já ouvi, jamais lançado, Síndrome de Don Juan.
Pior, a história é ainda mais triste, quem não viu o Beijo aa Força ao vivo (nome de um alicate de tortura nazista usado na língua dos poloneses) num lugar podre qualquer, nunca saberá do que estou falando. Eles nunca gravaram nada a altura do que são.
É interessante hoje poder testemunhar Shoreditch e Whitechapel, ou quem testemunhou Chelsea e o CBGB'S, ou sei lá, a Garagem Hermética, o Circo Voador, e pensar que algo mais próximo, uma frente fria, tomou as ruas vazias da minha cidade pelas mãos do Leminski, do Marcos, do Rodrigão e de todos esses incendiários românticos. Tempos de Fante, Bashô, Gregório de Mattos e Maiakovski. Foi ali que eu comecei a fazer teatro, lendo Beckett e olhando essas sombras curvadas nas esquinas de Curitiba. Hoje, exilado, parafraseio Ivan Lessa de Londres: Não há mais Curitiba em mim.
Quando comecei a organização desse livro, junto com a minha querida Nena e com o enorme carinho de Fábio Campana, pensei em mostrar um pouco desse cara, que morreu numa noite do ano novo aos míseros 36 anos de idade, e que me ajudou a ver a vida de um jeito menos inocente e mais explosivo. Devo meu humor, minha juventude, minha inspiração e quase tudo o que faço a esses caras. Troco tudo o que fiz e farei por ouvi-los uma vez mais. E faço isso porque sou um privilegiado por tê-lo conhecido, escutado, e por fim aprendido que o melhor da nossa vida, às vezes, só nos diz respeito, acontece na nossa esquina, nos porões das nossas cidades pequenas, e nunca será de domínio público felizmente ou infelizmente.
Então porque divulgar um livro como esse? Porque eu sou um bosta que não consegue se emocionar sem sair correndo para contar pros amigos sobre o que foi capaz de derreter meu cérebro até o peito. Então isso é pra vocês. Espero que vocês remoam seus sentidos, torçam suas cabeças, afoguem seus corações. Não vai ser como foi ao vivo mas, acredito, vai ser pra sempre.