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- Estive com a dissidência do Rio. Querem falar com você.
Raul dizia tudo às pressas. Aflito. No rosto a antiga expressão carregada de impaciência. Havia outro caminho, revolucionário, sem conciliação, sem ilusões. O importante era reorganizar o movimento e criar as condições que levassem à luta armada. Desatou a falar sobre a nova fórmula:
- Precisamos ler o livro do Debray, os textos do Che, a experiência cubana, o foco é a tática, o importante agora é criar uma grande frente de oposição ao regime que vocalize sua insatisfação nas ruas, nas manifestações, criar um, dois, três, mil vietnãs.
Carlos assustou-se. Voltara o pregador. No tom messiânico, o entusiasmo sem crítica, a doação sem reservas. Mas ele também estava ansioso para encontrar alguém capaz de fazê-lo entender o que estava acontecendo além das notícias permitidas nos jornais. No dia seguinte encontrou-se com o contato do Rio. Era apenas um pouco mais velho que ele. Renato, assim deveriam chamá-lo. Fora dirigente da UNE, membro do partido e, como eles, alguém que já não acreditava no velho PC.
- Nós cometemos erros políticos. O clube (chamava o partido) nega-se a fazer autocrítica e continua a cometer os mesmos erros, as mesmas falhas. Por isso organizamos a dissidência.
As palavras seduziam Carlos. Dentro dele crescia um pulsar surdo. Algo de indomável voltava a espreguiçar-se em seu peito. Já não podia aceitar os cultos das gerações anteriores, que adoravam a figura do pai saturniano: Stálin, depois Mão, depois Hoxha. Não mais a glorificação do velho líder solitário. Tinham heróis de carne e osso.