Insônia
p. 18 - 19
(...)
Então houve um jovem procurando o homem. Fatigado ao peso de seu fardo. Lembranças do amor e da guerra. (Rios de peixes dourados, o soco não devolvido, um manto de estrelas, o sorriso de Alva, os golpes nas espáduas, os choques na cabeça, o conto interminado, as canções de protesto, a morte de uniforme branco e galões dourados, o roteiro do filme, a menina Elsie, a ousadia dos músculos, a melancolia dos pátios, caras de desespero e fuligem).
E eis que diante dele se estendeu uma paisagem de silêncio e solidão. E coisas extraordinárias aconteciam. O moço encontrou o homem e mostrou-lhe o menino em sua noite de olhos cerrados, pedindo os sóis que lhe prometeram. Tem o corpo dissipado, a memória sem alma, as idéias gastas, os olhos coagulados pela afronta, a deserção, o morto. Viu os abutres e dentro de suas entranhas os espasmos de deus. Viu a queima da profecia, as cinzas do império, os sinais do vento, a guerra inacabada. Interminável.
Houve um grito intermitente em sua alma. Era tarde. O moço levantou-se do leito de agonia. Lambeu as feridas. Cobriu as cicatrizes. Pregou em seu rosto o sorriso dos cínicos, vestiu a pele do algoz. Pediu ouro, poder e glória. E exilou-se na escuridão.