Literatura e cartografia, dois desafios de interpretação.
Nelson Oliveira
Sempre que abro o mapa da cidade - seja ela São Paulo, Rio de Janeiro ou Curitiba, não importa - várias questões me ocorrem. Todas alheias ao fato de eu estar ou não perdido. As mesmas questões que me ocorreram enquanto lia os originais deste livro. Prosa ou poesia? Fato ou ficção? Fundo ou figura? Certamente ora isso ora aquilo, quando não é tudo isso ao mesmo tempo.
Porque as memórias, os breves ensaios, a prosa poética e os poemas em prosa desta coletânea não tratam apenas da fronteira que separa o Paraná de seus vizinhos, o presente do passado, as personalidades históricas do zé-povinho. Tratam do limite - por vezes cruzando-o - entre o relato histórico e a reelaboração imaginária, entre o caminhar exteriorizado e em linha reta, característico do conto e o vôo interiorizado e em ziguezague, típico da poesia, entre o fundo e a figura.
Dividido em três partes - inferno, purgatório e paraíso? -, Todo o sangue esconde a áspera maciez e o negro clarão da multifacetada sociedade sem rosto na qual vivemos. Na primeira parte estão as experiências sensoriais pouco comprometidas com a monótona causalidade do cotidiano. Na segunda abrigam-se as criaturas hediondas do crime, da tortura, da violência cometida tanto pelo homem quanto pela natureza. Na terceira estão os passeios pelos meandros da memória ancestral do Paraná.
No entanto, minha sugestão é que você, leitor, esqueça as cisões que há entre essas três seções, entre os diversos textos, e tente aprender este livro de uma só vez. Não isole suas partes. Ao contrário, agrupe-as todas numa imagem única. Analise-as em conjunto, como você faria, por exemplo, com um mapa desdobrando em cima da mesa.
Uma vez feito isso, tudo muda de figura, todo fundo mostra-se falso. Agora as veias e os vasos capilares observados nesse mapa só segues direções distintas para quem, estilhaçado pelos fragmentados do aqui e agora, não soube conservar no seu estojo de primeiros socorros o olhar totalizante.
Encarados como elementos do mapa ficcional de Fábio Campana, os protagonistas de narrativas tão distintas quanto Insônia, Ossos do ofício, e A eterna juventude de nossos pecados capitais combinam-se para compor o mesmo sentimento de nostalgia e de repulsa. De nostalgia pelo tempo mítico, quase pré-histórico, quando a América Latina, o Brasil, o Paraná e Curitiba estavam ainda em formação. De repulsa pelas feridas abertas na memória viva da classe média pelas sete pragas do regime totalitário.
Decifrado o mapa, os intervalos entre a prosa e a poesia desaparecerão. Cristãos novos e árabes, Gregório IX e Cabeza de Vaca, Dedé e Ali Chain, Cauby Peixoto e Caetano Velozo, pela primeira vez reunidos, cantarão É proibido proibir nas ruas desertas, nas avenidas desenhadas no chão das celas escuras e frias.
Cartografia e literatura, dois desafios de interpretação? Pode apostar que sim. Mas desafios que se completam.
Segundo passo: a coletânea finalmente assimilada na sua qualidade de carta geográfica, dê meia-volta, torne a desmembrá-la e devolva o que era livro ao mapa. Desfaça todos os laços, divida-o em três partes, volte a se perguntar: prosa ou poesia, fato ou ficção, fundo ou figura?
Complicado, este meu método de leitura? Não. Complexo, igual à vida em sociedade.